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FestivalVerãoRS 2011: Entrevista Andrucha Waddington

entrevista Andrucha Waddington

Produções cinematográficas associadas entre países não são nenhuma novidade, são inclusive estimulantes para resultados mais elaborados. Lope, de Andrucha Waddington é um trabalho que surgiu com a parceria de Brasil e Espanha sobre um período da juventude de Lope de Vega, um grande poeta espanhol que é praticamente desconhecido aqui no país.

O diretor Andrucha Waddington é conhecido por seus trabalhos como Casa de Areia (2005), o premiado Eu, tu, eles (2000) ou ainda por dirigir artistas como Arnaldo Antunes e Os Paralamas do Sucesso. Com o longa-metragem Lope, o diretor diz que houve um certo receio, pois a direção de um longa assim era realmente desafiadora, além de envolver dois países com culturas um tanto diferentes.

Ele conta que houve um processo de em média quatro anos para estudar a vida de Lope, uma espécie de Don Juan da poesia espanhola, e conseguir compreende-lo a ponto de apresentá-lo ao grande público. Ressalta que o longa cria uma espécie de fundação do personagem, contando a sua vida pré-fama e de que forma a poesia passou a ser o estilo de vida do escritor. Ainda, diz que o maior desafio foi recuperar os cenários da Idade Média, mesmo que a Espanha ainda preserve muito o patrimônio, a reconstituição de época foi um trabalho árduo mas que foi bem resolvido graças a preparação tanto dos cenários, como dos atores.

O interrogAção conversou com Waddington no lançamento de Lope, na sétima edição do Festival de Verão do RS de Cinema Internacional, em Porto Alegre. Além de contar como foi filmar fora do país, o diretor relata seus anseios sobre a falta de interesse dos exibidores em torno de filmes menos comerciais, mais voltados para cinema de arte. Inclusive, sugere algumas formas para que as distribuidoras e os artistas parem de perder incentivos e retorno financeiro com suas obras, principalmente com a pirataria via internet. Confira abaixo!

Como foi o lançamento do filme?
Lope é um filme que para a Espanha é extremamente comercial, porque é um personagem que é um mito dentro da cultura espanhola. Lá ele saiu com 340 copias e aqui ele é um personagem absolutamente desconhecido do público. Lançamos ele com 25 cópias, primeiro no circuito Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília e agora Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis, no dia primeiro de abril.

Normalmente as cópias para os filmes brasileiros vem em número menor, é muito difícil elas chegarem em outras cidades que não seja esse primeiro circuito que você comentou. Essa é mais uma decisão de quem?
Isso é uma decisão do exibidor e do distribuidor. O distribuidor tem a função de levar o filme ao maior número de espectadores possíveis, ele tem interesse nisso. Existe uma lei do natural do mercado, que ele próprio se regula, onde um exibidor tem interesse em um filme que vai dar bilheteria, então, muitos filmes que possuem uma demanda melhor do público, não é um filme órfão de um grande público, ele não encontra muito espaço dentro do circuito comercial mais aberto, então ele acaba dependendo do circuito de arte. Mas isso é uma coisa que acho que acontece no mundo inteiro, isso não é uma tragédia que só acontece aqui. O cinema extremamente comercial, vem como um arrasa quarteirão, ele tira todo mundo do circuito. Tem lançamentos que saem com 700, 800 cópias, mas o Brasil tem 2200 salas. Então um lançamento gigante estrangula o circuito, porque ele já o ocupa com 1/3 do total.

Como diretor, você vê isso…
O mercado é assim, eu não tenho muito o que… assim, por exemplo, se o Lope saiu com 25 cópias, eu tento trabalhar nele, como diretor, da maneira mais poderosa possível para ele ter uma vida longa sem ser ejetado do circuito. Se eu lançar o Lope com 100 cópias ele vai ficar uma semana em cartaz e adios. Então o exibidor, se o filme entrou na sexta, vai olhar a bilheteria de segunda e vai falar “sinto muito, tem um filme que vai me dar bem mais bilheteria e eu vou colocar no lugar”. Então você depende muito do circuito de arte sim, para determinados filmes. Como diretor, eu gostaria que o público tivesse mais interesse em filmes um pouco mais elaborados e menos, a priori, comerciais. Mas o mundo não é assim, o público tem o direito de consumir o que ele quiser, então infelizmente, ou felizmente, é assim que o mercado funciona.

Muitas pessoas conseguem acesso a filmes menos comerciais só pela internet, fazendo o download deles.
Ó, eu acho que assim, isso é uma coisa que é um erro. O erro está no sistema de distribuição, que não enxergou a internet como uma ferramenta de distribuição desde o início. A Netflix nos Estados Unidos, você paga sete dólares por mês e tem acesso ilimitado ao catálogo inteiro, então não tem por que você não pagar, e o autor ganha com isso. Demorou muito para o mercado aceitar isso e fez com que fosse normal para toda uma geração, meus filhos inclusive, acharem normal downlodar filmes ou música sem pagar. Mas eu acho o grande vilão, o grande culpado disso ter acontecido, é o próprio sistema de distribuição. Acho que agora naturalmente vai começar a ser impossível não ter a internet como meio de distribuição e isso vai mudar.

Mas esse público que consome os filmes desta maneira, você acha que isso é algo válido?
Eu acho que o direito autoral é algo que deve ser preservado, ao mesmo tempo que tem um desejo que o maior número de pessoas veja o filme. Então se você tem esse desejo como um diretor que fez o filme, a questão para mim é o ter um modelo de distribuição dentro da internet que seja acessível, e você corta uma quantidade de intermediário e ganha nesse meio pra levar direto do produtor através do canal distribuidor da internet para o público. Isso é o que eu gostaria que acontecesse, que fosse uma coisa de praxe, que ocorresse naturalmente. Com isso ninguém perde, todo mundo vai poder consumir por um preço barato. Com uma assinatura, por exemplo, por doze reais e você poder consumir quantos filmes quiser, não tem porque você não pagar, vai ter um download rápido, de qualidade. Não só no Brasil que os distribuidores tem essa dificuldade, nos Estados Unidos também houve isso e na Europa também, houve no mundo inteiro um preconceito diante esse método de distribuição.

Como é que foi para um diretor brasileiro filmar fora do país?
Acho que o cinema é uma linguagem universal, quando você começa a fazer um filme você até esquece que está fora do teu país, porque todo mundo que está ali é profissional do cinema, somente o que muda é a lingua, fora isso nada muda, todo mundo é meio bicho de cinema, então você rapidinho se acostuma, rapidinho você acha que já é espanhol.

Você comentou que usou duas premissas bem atemporais no filme, porque escolher essa época para mostrar isso?
Na verdade, aconteceu que diferente dos meus filmes anteriores, este foi um filme que o projeto chegou a mim. Era um universo distante, tinha um roteiro pronto que eu adorei. Era um projeto que na verdade me escolheu, no sentido de que eu não tive um insight “oh vou fazer a história do Lope”. Eu achei muito legal usar um personagem do século 16, para falar dessas duas questões que é um jovem resolvendo trocar o certo pelo sonho, largando o exército para virar um poeta, dramaturgo, e acreditar no talento dele, e a iniciação amorosa de um jovem adulto. Essas duas premissas me fizeram ficar muito instigado em contar essa história e aí quando fui conhecendo o Lope, personagem, fui ficando cada vez mais fascinado por ele.

Acompanhe o twitter do Andrucha Waddington.

Leia também o comentário sobre o filme Lope, que fizemos após a sessão do filme no festival.

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