O Futuro do Livro: Dora Garrido

Dando sequência a série de depoimentos sobre O Futuro do Livro (Elvira Vigna e Leandro Márcio Ramos), o interrogAção dessa vez pediu a opinião de um profissional que, talvez no imaginário mais recorrente, tem uma relação muito íntima com os livros. Não falo de escritores que os criam, nem de editores que ajudam a viabilizar o objeto-livro, mas sim da Bibliotecária. Dora Garrido é estudante do último ano do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Santa Catarina e como você pode ver em seu blog e twitter , ela não deixa escapar praticamente nada sobre informação & livros.

O texto que segue foi escrito especialmente para a nossa sessão, pedi que ela respondesse alguns questionamentos sobre sua visão do assunto e ela fez bem mais que isso. Dora aponta questões bastante aprofundadas sobre o paradoxo de futuro do conteúdo e das visões apocalípticas do objeto — pode-se dizer até fetichista — do livro, passando também pelas bibliotecas e o futuro delas. O texto é bem situado e referenciado, inclusive, com os textos que a própria autora escreve em seu blog, que também discute a informação, pesquisas e o papel do Bibliotecário. Creio que a principal importância da opinião e desenvolvimento da visão da Dora Garrido é justamente apontar informações vindas de dentro da academia e, apesar disso, nem de longe apresenta uma visão classicista. Afirmo que acertamos na escolha. Leia o texto e não deixe de acompanhar os trabalhos dessa prolífica pesquisadora e apaixonada por Biblioteconomia.

Sobre o futuro dos livros, das bibliotecas, dos leitores… (Por Dora Garrido)

Escrever sobre o futuro, pra quem não é visionário, é um desafio e tanto, eu diria. E os visionários são chamados assim (bem como também são chamados de hereges ou loucos) justamente por ousarem talvez enxergar o que ninguém mais enxerga ainda. Não é o meu caso. Também não sou muito imaginativa, mas posso tentar adivinhar o que vai acontecer, sempre com muita cautela, quase como uma inimiga do “progresso”.

Pensa-se no futuro do livro (ou o futuro do conteúdo) desde que “a Internet é Internet” como a conhecemos, ou seja, faz uns 15 anos por aí. Manter o foco no objeto físico do livro é mais difícil hoje uma vez que cada vez mais tratamos de conteúdo de modo geral (música, filmes, seriados, notícias, etc). Estamos em uma época em que vivemos entre os mundos físico e digital, e isso tem causado grande impacto em todos os setores e em todas as estruturas que conhecíamos até então. Quem sempre editou e/ou produziu conteúdo físico sente-se muito ameaçado: editoras, autores, gravadoras, alguns artistas, etc. E agora, as bibliotecas — bem como as livrarias — também estão se sentindo ameaçadas.

Naturalmente ninguém que seja bibliotecário irá pregar o fim dos livros, você pensaria. Afinal, este é “o único objeto de trabalho” deles e sem os livros “que utilidade haveria para um bibliotecário?” não é mesmo? Mas aí é que está: existem bibliotecários que se preocupam apenas com os livros (ou quaisquer que sejam os materiais do acervo). Outros que se preocupam apenas com as pessoas. E outros ainda que se preocupam um pouco mais com a tecnologia, em detrimento dos outros “objetos” de estudo. É possível que existam bibliotecários que estejam preocupados, em nível de igualdade, com todos esses “objetos” do nosso fazer. Mas a tendência é que cada um trabalhe com algum desses aspectos em específico com mais profundidade. Enfim… Entre o preto e o branco existe uma margem, bem ampla, dos vários tons de cinza.

Quem curte pregar o fim total e irrestrito dos livros são tecnocratas que acreditam que a tecnologia já substituiu absolutamente tudo o que é analógico. Notem bem: eles acreditam que a tecnologia JÁ substituiu e não que IRÁ substituir. O futuro, para eles, é agora. Pessoalmente, acredito que pessoas com este perfil independem de área, mesmo por que na Ciência da Computação pode ser possível encontrar pessoas preocupadas com a ‘causa humana’, bem como na Biblioteconomia é possível encontrar tecnólogos frustrados — e ainda assim, tecnocratas! — que pregam que livro impresso é uma coisa inútil do passado que ninguém mais (que eles conhecem) usa. O que é curioso, pois aí a pessoa faz Biblioteconomia e diz que “odeia bibliotecas” e também prega o fim dos livros, para o horror total das “tias da biblioteca”. Acredito que esse discurso, vindo da minha área, também deve parecer um tanto quanto contraditório para quem é ‘de fora’. Pois é.

Os tecnocratas defendem o que defendem — e como defendem! — pois esse é o mundo deles, o mundo ao qual eles tem acesso irrestrito e o mundo no qual eles acreditam ser o melhor, para todos indistintamente. Também acredito que a tecnologia pode viabilizar — e melhorar, transformar de verdade — uma série de coisas como tem feito de fato nos últimos anos (impossível ignorar isso). Mas mesmo fazendo uso das tecnologias e querendo aprender mais sobre, ainda tenho a cautela de acreditar que vivemos numa época de transição, em que aprendemos a conviver com esse hibridismo, entre o que é analógico e o que é digital. Não posso julgar se as tecnologias devem ser ignoradas ou endeusadas por que acho que não devemos viver ‘de extremos’, mas não posso ignorar o fato de que hoje, eu tenho uma miríade de escolhas desde livros com aquele cheiro que gostamos tanto, ou tablets e e-books, que me permitem acesso a uma porção de outras coisas, tudo ao mesmo tempo aqui e agora. Se a possibilidade existe, então por que não?

O digital não excluirá, de uma vez por todas, o impresso assim como

O rádio não destruiu o jornal, a televisão não matou o rádio e a Internet não extinguiu a TV. Em cada caso, o ambiente de informação se tornou mais rico e mais complexo. É essa a experiência por que passamos nesta fase crucial de transição para uma ecologia predominantemente digital. - Robert Darnton

Fico feliz por poder viver numa época em que eu posso escolher a qual mídia vou me apegar. Posso escolher não mais ver TV e também não ver seriados e só acompanhar blogs que falam de BBB por exemplo. Posso escolher colecionar vinis ou ter uma série de mp3 em diretórios bagunçados, sendo que algumas eu nunca ouço e nem sei o que são direito. Posso escolher decorar o lugar onde eu moro com estantes e ter um escritório próprio com vários livros organizados lindamente, ou posso jogar tudo fora pra ter mais espaço pra jogar Wii na sala e comprar um Kindle que caiba em cima da mesinha de cabeceira. Mas é sempre bom ter em mente que nenhuma coisa é melhor ou pior que a outra, nenhuma significa estritamente avanço ou retrocesso.. São apenas modos de vida diferentes, escolhas diferentes — quando tratamos de escolhas individuais, claro. Quando penso em uma biblioteca e no que ela pode oferecer, acredito que privar os leitores de qualquer uma dessas possibilidades, por hora, pode ser um tanto quanto equivocado, apenas isso.

E o “futuro apocalíptico” das bibliotecas já está aí. Para os tecnocratas isso é apenas “o futuro”, nada além disso. Ou ainda, para eles, deve ser um futuro que “demorou demais” a acontecer. E como os livros (entre outros materiais) acompanham as bibliotecas, já podemos imaginar que “o fim de tudo é mesmo inevitável!”. O fechamento das bibliotecas públicas britânicas e americanas que aparecem vez e outra na timeline do Twitter não me deixa mentir. Já tem gente chorando as pitangas e tudo o mais. E é mesmo o fim de uma era por que afinal, sem os livros, sem as bibliotecas e sem os bibliotecários “estamos todos condenados mesmo!”. Claro que existem N outras questões pra serem discutidas quando destes “cortes de custos”, cortes estes tão profundos que atingem toda a identidade de uma comunidade de leitores, bem como também um recurso intangível (informação) que — sempre bom recordar — nem todas as pessoas tem condições de pagar.

Sobre a pergunta “o livro impresso vai acabar de fato?”, acho que não posso responder isso por um grupo — no caso, estudantes de biblioteconomia e bibliotecários. Para mim, pessoalmente, não irá acabar enquanto os leitores desse tipo de material existirem, simplesmente. Ou seja, tendo em vista que eu tenho XX anos, coloque mais uns 60 anos aí, talvez mais, tranquilamente, e aposto como os materiais impressos (livros, periódicos e obras de referência) ainda existirão. A questão da afetividade com as bibliotecas e com os livros ainda existe e também não pode ser ignorada. A questão do acesso a informação também conta: percebemos que a tecnologia ampliou o acesso de maneiras até então inimagináveis, e que a convergência das mídias já é um fato considerado cada vez mais natural (e desejado)… Mas e a qualidade com que o conteúdo está sendo acessado? Autodidatismo, sendo bem realista, não me parece ser um privilégio de todos e literacia da informação (o “aprender a aprender”) não me parece que fará parte do currículo escolar tão cedo.

Riggs, no post “Quem lê livros?” de acordo com uma pesquisa que encontrou do Grupo Jenkins, questiona se houve uma mudança no entretenimento popular ou se apenas os livros estejam menos interessantes do que costumavam ser antigamente, ou ainda, questiona se as pessoas estão de fato emburrecendo (o que não deixa de ser uma teoria). Talvez tudo isso esteja associado ao modelo de educação que ainda persiste até hoje, segundo Sir Ken Robinson. Em um comentário que também li hoje no post “Precisamos mesmo de bibliotecas?” (tema que confesso já estar cansada de ver pipocar na minha timeline no Twitter) um autor anônimo colocou o seguinte questionamento que achei interessante:

Vocês realmente acham que todo mundo vai conseguir comprar e-books? E se de repente todo mundo no mundo (alfabetizado ou não) tivesse um e-book e acesso ilimitado à e-books grátis, acham que isso seria o suficiente?
Então sim, acho que precisamos sim de nossas bibliotecas. Por que e-books, assim como livros impressos, são um meio e não a solução para todas as nossas necessidades de informação.

Neil Gaiman, além de lamentar o fechamento de várias bibliotecas, já falou que o que o preocupa não é o fim dos livros, mas o fim dos leitores. Fechar as bibliotecas por que elas gastam muito dinheiro é uma decisão administrativa e econômica que desconsidera totalmente as necessidades de uma comunidade que precisa deste tipo de apoio. Ok, sei que é batido, mas é isso mesmo: será que a única coisa que precisamos nessa vida mesmo é só de comida? Podemos sobreviver restritamente apenas com o que é básico? Sim, podemos. Mas seria isso mesmo desejável pra toda uma comunidade?

As bibliotecas nunca foram armazéns de livros. Embora continuem a fornecer livros no futuro, também funcionarão como sistema-nervoso da informação digitalizada – tanto em termos de vizinhança, quanto dos campi universitários. - Robert Darnton

Literatura não é apenas literatura, assim como livros não são apenas livros… E uma biblioteca (dependendo das pessoas que lá trabalham) não é apenas uma biblioteca. É difícil, para mim, acreditar que as bibliotecas e os livros estão morrendo e acabando, uma vez que a biblioteca da minha universidade nunca tem mesas disponíveis, nem espaço para estudo o suficientes. Por que será que ela está sempre cheia de gente, estudando, com livros, papéis, anotações, laptops, netbooks e celulares de mil tipos? Por que essas pessoas não estudam em casa? Se existe um ambiente que proporciona silêncio e acomodação, onde as pessoas se sintam confortáveis para estudar, planejar trabalhos, tomar café ou dormir no puffe, por que esse ambiente deveria deixar de existir? O que existe nesse ambiente e atrai as pessoas, que não existe em nenhum outro lugar?

Alguém ousa imaginar o conceito de uma biblioteca feita apenas de pessoas ao invés de simplesmente só livros? Em um conceito de ‘centro de cultura e informação’ totalmente livres e independentes de organização e de suportes físicos de informação? Imaginar é uma tarefa difícil e conciliar a imaginação com a viabilização, mais difícil ainda. Mas isso a gente deixa para os visionários. Enquanto isso, continuaremos questionando e tentando nos adaptar a todas as mudanças, na medida do possível.

Dora Garrido é acadêmica do curso de Biblioteconomia da UFSC. Acompanhe seu blog aqui


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Comentários

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