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Ali Boma Ye: dois livros sobre Muhammad Ali
Muhammad Ali teve em sua carreira 56 vitórias (37 por nocaute) e 5 derrotas apenas. Há 30 anos sofre do Mal de Parkinson. Nos anos 60 foi o maior atleta que o mundo conheceu e a Companhia das Letras relançou em versão de bolso dois livros importantes sobre o pugilista na coleção Jornalismo Literário.
Remnick não apenas foca na vida do lutador como vai narrar também os bastidores da crônica esportiva da época, os movimentos raciais em ascensão (Malcolm X era amigo de Ali, mas depois romperam relações devido às divergências de Malcolm com a Nação do Islã), o submundo do esporte (as ligações estreitas com a máfia retratada na vida de Sonny Liston). Para quem não conhece a história de Ali, comece por O Rei do Mundo.
Após perder o título de Campeão dos Pesos Pesados ao se recusar a lutar no Vietnã, Ali vai até o Zaire lutar contra o então campeão George Foreman, que se acidenta durante o treino e atrasa em um mês aquela que se tornou uma das lutas mais aclamadas do boxe. Mailer é tão personagem quanto os dois lutadores, participando de uma longa corrida com Ali e indo a uma cartomante junto com o jornalista George Plimpton pra saber quem venceria a disputa. Norman também relata a pobreza que se encontrava o país africano comandado pelo ditador Mobutu Sese Seko e as peripécias de Don King, o empresário fanfarão que organizou o evento.
Apesar dos dois livros terem o mesmo personagem principal, O Rei do Mundo não separa o boxe da política (desde 1950, a maioria dos pesos pesados eram composta por negros), e uma amostra do conflito racial da época é exemplificada na luta entre Floyd Patterson e Sonny Liston, onde o primeiro é o negro liberal, a favor da tolerância racial contra o negro estereotipado: Liston era considerado caso perdido, com passagens pela cadeia e ligação com o crime organizado. Esse terreno é armado par medir o impacto que seria a figura de Cassius Clay no esporte. David também presta um tributo à crônica esportiva da época, relembrando A. J. Liebling, Gay Talese (que escreveu um emocionante perfil de Floyd Patterson), James Baldwin e suas desavenças com Norman Mailer. Todo o trabalho de pesquisa feito por Remnick contribuiu para um ótimo livro tanto sobre boxe como para o que o foram os anos 60.
Já A Luta, é o clássico do jornalismo literário e da imersão. Mailer não faz concessão alguma quanto sua participação nos eventos e o coloca como um personagem tão participativo quanto Ali e Foreman. Ali é um mistério que Mailer vai desvendando ao longo do livro e assim como é também o ditador Mobutu Sese Seko, que para conter uma possível onda de violência contra turistas estrangeiros no dia do evento, mandou reunir mais de mil criminosos no vestiário do estádio onde seria a luta e mandou executar cem deles como um aviso para o que iria acontecer caso desobedecesse as ordens de Mobutu. Segundo Mailer, o chão do estádio ainda continha sangue no dia da luta. Como explicado no posfácio de Claudio Weber, muito das brincadeiras com palavras que Norman faz se perdem na tradução para o português, mas não compromete o texto.
Recomendações:
When We Were Kings (1996), documentário de Leon Gast, mostra como foi à luta entre Ali x Foreman e conta com depoimentos dos citados Norman Mailer e George Plimpton
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